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Gustavo Santos, uma homenagem à avó

“Fomos apresentados em 1977, quando nasci. Chegámos a viver juntos durante uma temporada enquanto era criança. Recordo-me da sua casa com os velhos candeeiros que ladeavam as mesinhas de cabeceira, da cómoda antiga e do imponente guarda-roupa, dos rendados que adornavam cada
peça do mobiliário e da colcha da cama, todos feitos por ela, à mão e com muito amor. A minha avó era uma artista. As suas mãos dominavam as agulhas e conhecia de cor todas as linhas, novelos e tecidos. Mulher desembaraçada, toda a vida fizera fatos, saias, toalhas de banho, toalhas de mesa, panos, enfim, tudo o que um bocado de qualquer coisa permitisse fazer. Era minuciosa, perfeccionista e voltava tudo atrás se notasse um ponto imperfeito, mesmo que estivesse mil casas à
frente. Fazia-o com paixão, de olhar aguçado e sorriso discreto, incansável. Guardo com muito amor tudo o que me foi oferecido por aquelas mãos.
Numa primeira fase da sua vida, trabalhava para pôr comida na mesa e poder visitar o filho internado lá longe mas depois, com as reviravoltas do destino, o que antes era uma necessidade passou a ser o seu entretém, um esconderijo quando a solidão atacava.
Sem que se apercebesse, cheguei mesmo a presenciar conversas que tinha com as suas obras. Por vezes discutia com elas, outras tantas elogiava-as, mas eram grandes amigas, a minha avó e as suas criações.
O isolamento obriga-nos a falar com as coisas e a acreditar que elas nos ouvem e respondem. Também aprendi isso com a minha avó. Durante a minha solidão consciente, dou por mim a falar com objetos ou com a natureza, a argumentar o que penso sobre eles ou o que me fazem sentir, e é bom. É muito bom. Sugiro mesmo que experimentes antes de me chamares maluco, porque afinal, tudo é energia. Tudo tem uma espécie de vida.
A natureza era outra das grandes paixões da minha avó e porventura a sua maior companhia eram mesmo as flores. Em sua casa, existia uma simpática varanda que parecia a entrada do paraíso, tal era a beleza, o perfume e a multiplicidade de formas e cores. Não havia uma flor à qual se pudesse apontar o dedo e dizer que estava murcha por estar triste, ou seca por querer partir. Todas eram felizes e vivaças, uma enorme família verdejante, a verdadeira família da minha avó, atrevo-me mesmo a dizer, porque estavam presentes como eu nunca estive. Como ninguém esteve. Devia sentir vergonha, culpa ou algo semelhante ao afirmar isto, mas não. Já o senti, mas já deixei de me
punir por aquilo que não sabia fazer, ou por o meu melhor naquela altura ser tão pouco. E esta tomada de consciência enche-me de orgulho. É um sinal de força interior e maturidade. Todos temos um passado, mas se desejamos mesmo ser felizes hoje é preciso saber aceitá-lo, aprender com ele e perdoar-nos.
Recordo-me de ter oferecido à minha avó, numa noite de Natal, um bonsai que comprara a muito custo. Era uma laranjeira de simetria perfeita, com alguma relva e uma ou outra flor branca acabada de romper nos ramos. Escolhi uma laranjeira porque a minha avó deliciava-se com laranjas. Todos os dias, sem falta, despia uma após o almoço e saboreava-a como se tivesse comido a última há muito tempo. De cotovelos apoiados na mesa e faca em riste, cortava-a em gomos
verticais, na medida certa para não ferir o fruto, e depois, peça a peça, desnudava-a até ficar sem casca. Abria-a então ao meio e, lentamente, apropriava-se dela com um gozo que só visto. Que melhor investimento poderia eu fazer, do que numa árvore que a alimentasse para sempre? A sua gratidão no momento em que viu a oferta valeu todos os escudos que gastei e só perdi aquele bonsai de vista muitos anos depois. Entre o princípio e o fim, perguntei-lhe imensas vezes como é
que conseguia manter a árvore viva, a desbarrigar frutos constantemente, e a sua resposta era sempre a mesma, o sorriso e o encolher de ombros também:
 – Ó filho não sei, a avó não faz nada de especial, dou-lhe festinhas todos os dias, água e pomos a conversa em dia.
Era assim a minha avó Tó.”

O texto é um trecho do meu novo livro “O CAMINHO”, uma homenagem à minha avó, um relato biográfico dos nossos últimos três meses de juntos e um verdadeiro hino ao amor incondicional.

                                                                                                      Gustavo Santos

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Biografia:

Gustavo Santos, 38 anos, sete livros publicados, autor português de desenvolvimento pessoal mais vendido em Portugal, conferencista para algumas das maiores multinacionais que estão no nosso país, apresentador do “Querido, mudei a Casa”, mas essencialmente sou um homem feliz, um
sonhador nato que conquisto tudo aquilo com que me comprometo.
Máxima de vida: Tens de ser a pessoa mais importante da tua vida. Ama-te.

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